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NOTÍCIAS - Médicos alertam sobre necessidade de dieta específica para cada pessoa Indivíduos podem ter características semelhantes e precisar de tratamentos diferentes - por Ana Beatriz de Melo A Del Tio

Perder peso, fazer dieta, comer menos disso ou daquilo... Quem nunca fez uma resolução de ano novo parecida com algo assim que devore o primeiro pedaço de brownie. Mas, antes de perseguir esse objetivo, as pessoas precisam saber que, hoje, no centro das discussões acerca de obesidade e sobrepeso, está uma “pergunta de um milhão de dólares” que motiva estudos de pesquisadores mundo afora: por que algumas pessoas conseguem perder 10 quilos com uma dieta, enquanto outras, seguindo exatamente o mesmo regime alimentar, chegam até a ganhar peso?


Um estudo liderado pelo professor Frank Sacks, do Departamento de Nutrição da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, levanta a discussão mostrando justamente essa (revoltante) realidade. Indivíduos podem ter o mesmo excesso de peso, mesma idade, mesma classe socioeconômica, mesmo sexo e, ainda assim, precisarem de estratégias completamente diferentes para emagrecer. O tratamento ideal para alguns pode não servir de nada para outros.

Tais constatações levaram os especialistas na área a concordar que a obesidade, assim como o seu estágio inicial, o sobrepeso, não é só uma doença, mas várias. Alguns estudiosos chegam a enumerar mais de 50 tipos de obesidade, muitos ligados a genes específicos. As causas para a constante luta contra o excesso de peso podem atender por vários nomes: hipotireoidismo, metabolismo lento, síndrome de Cushing, histórico de pais obesos, ingestão de certos medicamentos que têm o ganho de peso como efeito colateral, e muitos outros. Rastrear o “gatilho” para cada caso de obesidade ajuda a encontrar a melhor estratégia para perder peso — e, o mais importante e mais difícil: não voltar a engordar.

TENTATIVA E ERRO

Em geral, é uma questão de tentativa e erro, devendo-se começar pelos métodos menos invasivos até chegar aos mais agressivos quando necessário, diz a endocrinologista Cintia Cercato, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso):

— Se o paciente tem Índice de Massa Corporal (IMC) entre 25 e 30 (indicando sobrepeso), a primeira conduta é mudar o estilo de vida, com tentativas de dietas balanceadas e exercício. Mas, se nenhuma tentativa der resultado, e o paciente tiver uma complicação de saúde, já se admite tratamento mais severo, com medicamentos.

Cintia ressalta que, assim como a obesidade surge a partir de diferentes causas, o problema se comporta de formas variadas no corpo de cada pessoa. Enquanto alguns obesos de grau 3, o mais alarmante, podem não ter complicações por conta disso — como diabetes ou doenças cardiovasculares —, outros com obesidade leve ou mesmo com apenas sobrepeso podem ter a saúde comprometida. A forma como a gordura é distribuída pelo corpo diz muito sobre o risco de desenvolver doenças. A gordura mais perigosa é a visceral — aquela que fica junto às vísceras, na barriga — e a que vai para dentro do fígado. Pode atrapalhar a produção de insulina, por exemplo. Já a gordura subcutânea é boa, protege o corpo. Portanto, quem é muito gordo, mas tem mais gordura subcutânea do que visceral, não está tão mal assim.

— A conclusão a que a gente chega é esta: não basta olhar só o peso para definir o tratamento, existe muita coisa por trás. A obesidade é uma doença muito heterogênea — afirma Cintia.

O pesquisador Pedro Assed, do Grupo de Obesidade e Transtornos Alimentares (Gota) da PUC-Rio, diz que descobrir o “motor” do ganho de peso é essencial para começar a esboçar uma estratégia de emagrecimento, com a ajuda de um endocrinologista ou nutricionista.

— A pessoa precisa primeiro descobrir se está ganhando peso porque come muito ou se tem alguma desordem. Se tiver hipotireoidismo, por exemplo, não adianta fazer dieta ou atividade física enquanto não receber o hormônio da tireoide que está faltando — explica o endocrinologista.

Para o carioca Rodrigo Coelho, de 29 anos, foi preciso peregrinar por uma série de dietas até encontrar aquela que o fez perder 65 quilos, sem medicamentos ou cirurgia bariátrica. Em apenas um ano, ele passou de 146kg para 81kg, peso bem mais adequado para sua altura de 1,76m. Antes disso, ele já havia experimentado a dieta da sopa, a dieta das 1.200 calorias e diferentes remédios para emagrecer. Chegou a perder mais de 15 quilos algumas vezes, mas sempre engordava de novo, em geral ganhando até mais peso. A “receita” do sucesso, no caso dele, foi um regime rico em verduras, legumes, grãos integrais e carnes brancas, seguido dentro do programa dos Vigilantes do Peso.

— O mais difícil não é iniciar o emagrecimento, mas manter, viver com as tentações. Hoje, eu como pizza, mas uma ou duas fatias, não cinco de uma vez. Até me permito tomar uma cerveja. Mas, se eu quiser isso, em vez de comer biscoitos no café da manhã, tomo iogurte natural e frutas. Descobri que não aguento regimes radicais — diz ele.

Não há fórmula mágica. O estudo do professor Frank Sacks, de Harvard, corrobora que não existe dieta necessariamente melhor que outra, mas, sim, uma mais adequada para cada organismo. Na pesquisa, 811 adultos obesos ou com sobrepeso foram aleatoriamente designados a seguir uma dentre quatro dietas. No fim das contas, a perda de peso média foi pequena em todas elas. Mas, em cada dieta, foi encontrado um grupo de “superrespondedores”, que perderam enorme quantidade de peso, e um grupo que não perdeu sequer um grama.

A herança genética é o principal fator para ganho de peso. Se um dos pais de uma criança é obeso, ela tem 40% de risco de também ser obesa. Se ambos os pais tiverem o problema, a criança tem 80% de risco de desenvolvê-lo.

Mas há maneiras de interferir na genética. O crescente campo da nutrigenômica diz que muitos alimentos influenciam no genoma humano. Todo ingrediente com excesso de gordura trans, por exemplo, facilita a transcrição de genes que geram resistência a insulina, podendo levar ao diabetes. Já o alho e a cúrcuma fazem o contrário: estimulam a transcrição de genes com poder de diminuir a inflamação local.

— Estar obeso é como estar cronicamente inflamado, e é isso o que liga os obesos a tantas doenças — explica Pedro Assad. — Muita gente perde peso comendo alimentos ruins, e não consegue manter. Se você come alimentos ruins, não está ajudando o seu genoma. Se come alimentos bons, eles ajudam você a não engordar novamente.



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