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NOTÍCIAS - EUA determinam que homeopáticos alertem consumidores sobre falta de comprovação científica Fabricantes agora têm que provar alegações nos rótulos ou alertar que produtos não têm ação comprovada - por Ana Beatriz de Melo A Del Tio

Remédios homeopáticos vendidos sem receita nos EUA agora devem provar com estudos independentes as alegações de que agem contra as doenças ou sintomas anunciados em seus rótulos. Caso contrário, tais afirmações têm que ser acompanhadas por um alerta de que não são cientificamente comprovadas e se baseiam em teorias surgidas no século XVIII não mais aceitas pela maioria dos cientistas atuais. A determinação, divulgada na semana passada pela Comissão Federal de Comércio (FTC, na sigla em inglês), órgão que regula o setor no país, é uma nova investida no cada vez mais apertado cerco à homeopatia em alguns países desenvolvidos, onde é apontada por muitos especialistas em saúde como uma “pseudociência”. Enquanto isso, em outras nações, a homeopatia ainda desfruta de um maior status. Como no Brasil, onde ela é reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) como uma especialidade médica desde 1980.



— Existe uma briga muito grande, de anos, para desacreditar a homeopatia — diz Francisco José de Freitas, professor adjunto e chefe do Departamento de Homeopatia e Terapêutica Complementar da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e que clinica na área desde 1982. — Infelizmente, isto acontece porque a homeopatia vem crescendo de forma consistente mundo afora e isso perturba os interesses da indústria farmacêutica, pois acaba comendo uma fatia do mercado.

PILARES CRIADOS NO SÉCULO XVIII

De fato, os estudos publicados nos últimos anos em periódicos científicos ou avaliações encomendadas por órgãos governamentais de países como Reino Unido e Austrália não tiveram resultados favoráveis à homeopatia, indicando que ela não é mais eficaz que o chamado “efeito placebo”. Criada em 1796 pelo médico alemão Samuel Christian Hahnemann (1755-1843), esta prática terapêutica segue três princípios básicos. O primeiro, conhecido como “lei dos semelhantes”, diz que o que quer que seja a causa do sintoma no paciente também será sua cura. Por exemplo, se você sofre de insônia por consumir cafeína durante o dia, deve ingerir cafeína à noite para dormir.

E é aí que entra o segundo princípio da homeopatia, chamado de “lei dos infinitesimais”, segundo o qual esta cafeína noturna não deve ser tomada como a consumida de dia, mas sim diluída em doses ínfimas (daí o nome). Assim, no remédio homeopático típico, as substâncias supostamente neles contidas podem estar em concentrações que vão desde uma parte em um trilhão (diluição conhecida na área como 6CH) até uma parte ao número um seguido de 60 zeros (diluição 30CH), um número tão grande que se aproxima da estimativa da quantidade de átomos existentes em todo Universo (um seguido de 80 zeros).

Para os críticos, estes níveis de diluição são um dos indícios da ineficácia da homeopatia, como argumentou a própria FTC na sua decisão: “muitos produtos homeopáticos são diluídos a um extremo que não mais contêm níveis detectáveis da substância inicial”, diz o comunicado do órgão americano. Por fim, o último pilar da homeopatia, ou “lei da sucussão”, dita que, ao serem produzidos, os remédios homeopáticos devem ser constantemente agitados, ou “dinamizados”, para ativar a “memória” da água ou outro extrato onde estejam sendo diluídos (geralmente também são usados álcool ou sacarose), “potencializando-os” para que surtam efeito.

O problema é que os princípios da homeopatia criados por Hahnemann e desenvolvidos desde então vão de encontro aos conhecimentos atuais sobre física, química e biologia. Isto, no entanto, não impede que ela seja cada vez mais procurada por pessoas na busca de solução para diversos problemas de saúde. Segundo a Administração para Alimentos e Drogas dos EUA (FDA), em 2007, último ano para o qual existem dados, os americanos gastaram quase US$ 3 bilhões (cerca de R$ 10 bilhões) em tratamentos homeopáticos. Responsável por regular o setor de medicamentos nos Estados Unidos, a FDA dá um tratamento especial para os remédios homeopáticos, não exigindo que eles comprovem sua segurança e eficácia como faz com os alopáticos (convencionais) para serem registrados e vendidos — princípio que foi seguido por sua equivalente brasileira, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em resolução de 2007 na qual criou a categoria de “medicamentos dinamizados” para controlar sua fabricação, registro e venda.

São pessoas como a pedagoga Letícia Rossi, que começou a se tratar com homeopatia há cerca de três meses. Depois de tentar diversas estratégias, é a primeira vez que ela consegue resultados eficazes.

— Uso homeopatia há pouco tempo, mas estou gostando muito, já sinto que está surtindo efeito. Comecei a tomar há três meses para inibir minha ansiedade, que estava fazendo com que eu comesse muito. Também tenho pressão alta e então utilizo uma fórmula para equilibrar minha pressão — conta ela, que desde o início do tratamento já emagreceu sete quilos.

Já Amarilys de Toledo Cesar, presidente da Associação Brasileira de Farmacêuticos Homeopatas, vê com bons olhos a decisão da FTC. Paradoxalmente, ela acredita que a medida “ajuda a separar os produtos homeopáticos sérios dos não tão sérios assim”, embora admita que a comprovação da eficácia dos remédios homeopáticos no Brasil seja feita apenas com consulta à literatura médica produzida pelos próprios homeopatas, e não por estudos independentes como passou a exigir a FTC.

— É preciso que haja comprovação científica sobre a eficácia dos medicamentos mesmo -— diz. — No Brasil, toda vez que vamos fazer um registro na Anvisa, costumamos comprovar isso não por meio de estudos propriamente ditos, mas por meio de literatura. O lado negativo da medida, a meu ver, é que não existe muita verba para pesquisas em homeopatia, então isso dificulta a possibilidade de comprovação. A medida não é necessariamente ruim, mas pode diminuir o apoio. No Brasil, quem faz pesquisa na nossa área é um herói.

Freitas, por sua vez, lembra que o importante não é contrapor homeopatia e alopatia, mas sim entender as duas abordagens como uma forma integrada de tratar o paciente com foco na pessoa e não na doença, num resgate de uma visão holística da medicina liderado pela própria prática homeopática.

— A homeopatia não parou no século XVIII e evoluiu muito desde então — defende. — Além disso, aqui no Brasil a homeopatia é feita por médico e ocupa uma posição bastante diferente da que tem nos EUA, onde não é preciso ser médico para ser homeopata. Existe atualmente todo um movimento na medicina de retorno ao paciente, de tratar as pessoas e não as doenças. E até por consequência da própria forma de ser da homeopatia, ela é uma medicina mais humanizada, que atua muito também na prevenção e na promoção da saúde, deixando as pessoas aptas a responder aos diversos estímulos nocivos que sofremos no dia a dia.



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