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NOTÍCIAS - Especialistas defendem ampliação de programa contra febre amarela Costa do Sudeste ainda está fora da área de recomendação à vacina - por Ana Beatriz de Melo A Del Tio

À medida que a febre amarela silvestre avança pelo Brasil, especialistas reforçam o apelo para que o Programa Nacional de Imunizações (PNI) seja revisto. Este já é o maior surto em décadas e a doença avança na direção do leste e do litoral, a faixa mais populosa do Brasil e com a menor cobertura vacinal. Por isso, o virologista Pedro Fernando da Costa Vasconcelos, considerado um dos maiores especialistas do mundo em febre amarela, acredita que chegou a hora de a recomendação de vacina ser ampliada para todo o território brasileiro. Hoje, a superpovoada costa do Sudeste, por exemplo, está fora da área de recomendação.




A vacina da febre amarela faz parte do calendário do PNI. Mas os casos em cidades mineiras onde a população deveria ter sido vacinada mostram que faltou informação, diz outro dos principais nomes do Brasil no estudo da febre amarela, Luiz Tadeu Figueiredo, professor titular de Doenças Infecciosas e Tropicais e coordenador do Centro de Pesquisa em Virologia na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. A região de Ribeirão Preto está dentro do que Vasconcelos considera um polígono de alta circulação do vírus.

— O número de casos é indiscutivelmente preocupante. E o Espírito Santo preocupa ainda mais. Está na frente de expansão e tem cobertura vacinal insignificante. A vacinação de emergência que acontece lá é fundamental. Mas, se o Brasil quer afastar o maior temor, a ressurgência da febre amarela urbana, tem que se antecipar. E a única forma de fazer isso é com vacina. O controle do transmissor da febre urbana, o Aedes aegypti, continua insuficiente — diz Vasconcelos, diretor do Instituto Evandro Chagas, em Ananindeua, no Pará.

Ele frisa que não há risco imediato de uma epidemia de febre amarela urbana, mas para afastá-lo e não deixar renascer uma das maiores desgraças da história da saúde pública, é preciso discutir o programa e estudar logo como deveria ser ampliado. Outro que salienta a urgência de rever a estratégia de vacinação é o presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, Maurício Lacerda Nogueira.

— Há muitas décadas o país não enfrentava nada assim. Desde os anos 30 não se via nada igual. O alerta está dado. A febre amarela se adaptou aos novos tempos. Somos um caldeirão para emergência de doenças. O Brasil tem muita gente, muito mosquito e suscetibilidade. Logo, mais que qualquer país, precisa se antecipar. Vigiar o tempo todo — adverte Nogueira, especialista em febre amarela e professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (SP), em cuja região onde aconteceram casos em seres humanos e macacos nos últimos meses.

O Ministério da Saúde garante que o estoque atual de vacinas é suficiente para deter o surto de febre amarela silvestre e proteger a população. Mas não informa quantas doses o Brasil tem em estoque neste momento. Segundo nota enviada pelo ministério, “o quantitativo de estoque estratégico do Programa Nacional de Imunizações” não é divulgado “por se tratar de uma questão de segurança nacional”.

Vasconcelos explica que para evitar uma epidemia de febre amarela urbana, quando há risco de a doença se estabelecer, é preciso que 90% da população estejam vacinados. Segundo o Ministério da Saúde, a cobertura nacional de 2006 a 2015 é de 62,79% da população. E ela é desigual. Varia de 53,43% em Minas a 99,65% em Roraima, por exemplo. Mas Rio de Janeiro e Espírito Santo, assim como vários estados nordestinos, não fazem parte da estatística por não estarem na área de recomendação. Toma a vacina quem vai para a área de risco. Quantos tomaram, o ministério informa não ter os dados. E agora, no caso do Espírito Santo, o risco foi até o estado. Tadeu se preocupa também com o Rio:

— A vacina tem risco de causar reações? Tem. A vacinação precisa ser criteriosa. Mas na situação atual o risco da doença é maior. O Rio tem o mais dramático histórico de febre amarela do país. E reúne hoje condições para a febre amarela: muita gente, calor, mosquito, chuva, uma população vulnerável, não vacinada. O controle do mosquito fracassou. É preciso se antecipar e não relaxar com a vigilância.

SURTO INCOMUM

O surto atual parece diferente dos anteriores. O grupo de Vasconcelos começou a analisar o genótipo do vírus que causa o surto atual.

— Estamos investigando, mediante o sequenciamento do vírus isolado em Minas Gerais. Estou interessado em saber qual o genótipo do vírus que provoca esse surto — observa.

No genótipo podem estar explicações para alguns fatores que intrigam os cientistas. Maurício Nogueira explica que o este surto tem duas coisas fora do comum. A primeira é o pouco tempo transcorrido entre o aparecimento dos sintomas e a morte de um paciente. As pessoas parecem estar morrendo mais depressa. A outra é o número maior de macacos mortos. Não apenas os bugios, espécie normalmente muito vulnerável à febre amarela, mas também o extremamente comum Callithrix, gênero que inclui o mico-estrela.

— Os micos também são vulneráveis e têm sido muito afetados agora — explica Vasconcelos.

MINISTÉRIO NÃO DIVULGA ESTOQUE

Diante do rápido avanço do surto de febre amarela no país, O GLOBO solicitou ao Ministério da Saúde informações sobre a quantidade de vacina em estoque, mas não obteve a informação. Em nota, a assessoria de comunicação do ministério respondeu:

“O Ministério da Saúde esclarece que não divulga o quantitativo de estoque estratégico do Programa Nacional de Imunizações por se tratar de uma questão de segurança nacional. Sobre a vacina de febre amarela, cabe ressaltar que o Brasil possui estoque suficiente para atender a demanda da população brasileira, sendo, inclusive, exportador desta vacina para o mercado internacional”.

Este mês, a pasta distribuiu 650 mil doses da vacina para todo o país, como parte da rotina de abastecimento do Calendário Nacional de Vacinação, além de 4,6 milhões de doses extras para os quatro estados com registros da doença e o Distrito Federal.



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