LabClínicas

NOTÍCIAS - Dieta sem glúten: vale a pena para quem? - por Ana Beatriz de Melo A Del Tio

O movimento da dieta sem glúten está transformando uma das proteínas mais consumidas no mundo numa das mais temidas e combatidas. Ano passado, figurou entre as “top 10” buscas de saúde no Google. Nos EUA, estima-se que um terço dos americanos adultos queira eliminá-la das refeições. Lá e aqui no Brasil, nos últimos anos, ela deixou as letras miúdas de embalagens e ganhou destaque em espaços nobres de supermercados. A tendência, dizem especialistas, traz consequências: mudanças de hábitos alimentares desnecessárias (em alguns casos, maléficas) e, ainda, um descrédito àqueles que, de fato, não podem consumir alimentos à base de trigo, centeio, cevada, malte e aveia. Para derrubar alguns mitos e dar orientações, este foi o tema do último debate dos Encontros O GLOBO Saúde e Bem-Estar.

Pesquisas vêm mostrando o aumento da prevalência das sensibilidades a alimentos na população mundial, e as proteínas do trigo estão na frente da fila. Três males são conhecidos: a doença celíaca, a sensibilidade ao glúten e a alergia ao trigo. Cada um tem um mecanismo de ação no organismo, mas, em comum, todos forçam a adoção de restrições na dieta.

As alergias alimentares atingem 5% da população, e a do trigo está entre as mais comuns. Além disso, 1% tem doença celíaca, mal autoimune que impede a digestão do glúten e leva a complicações graves. Um estudo publicado este mês na revista “Plos One” diz que, na América Latina, o índice varia entre 0,46% e 0,64%. Enquanto isto, ganha popularidade o termo sensibilidade ao glúten, que afetaria entre 3% e 6%, segundo estimativas iniciais.

Paralelamente, especialistas não cravam quando exatamente a tendência começou, mas supõem que o misto de novos estudos revelando males do glúten para uns, a adoração das dietas temáticas para emagrecer (da proteína, da sopa...) e, finalmente, o depoimento de celebridades acabaram levando o que era um problema restrito ao modismo.

— Isto está muito na moda, mas não recomendamos que se adote a dieta sem glúten para perda de peso se a pessoa não tem sensibilidade ao glúten ou doença celíaca — afirma o cardiologista Cláudio Domênico, curador do evento.

MERCADO MOVIMENTA US$ 2,4 BILHÕES

Embora a disponibilidade de alimentos sem glúten continue limitada, a indústria passou a investir neste mercado lucrativo — mais caro que o tradicional — e acumulou US$ 2,42 bilhões no mundo em 2014. Entre consumidores americanos, 36% optam pela dieta mesmo sem diagnóstico, seguido por 28% de celíacos e 17% que acreditam ser sensíveis ao glúten, entre outras motivações.

Um estudo espanhol publicado ano passado nos “Anales de Pediatría” garante que a dieta sem glúten não prejudica a saúde e disponibiliza a proporção necessária de nutrientes. A diferença entre as duas, destaca o estudo, é o aumento do consumo de gordura pelos que não consomem glúten. Grãos aceitáveis incluem arroz, trigo sarraceno, milho e quinoa, além de outras fontes de carboidratos.

Mas segundo a nutricionista Virgínia Nascimento, é comum entre quem adota a dieta acabar não variando nas opções. Ela cita a tapioca como exemplo.

— Que bom que é ela que está na moda, porque é um alimento natural presente no cardápio do brasileiro em várias regiões. Mas quem pensa que ela não engorda porque não tem glúten está enganado, ela tem alto índice glicêmico, ou seja, eleva rapidamente o açúcar no sangue. Comer tapioca demais não ajuda em nada — explicou Virgínia, durante o encontro.

Outra consequência é que o modismo acabou distorcendo o debate e atrapalhou o ativismo, critica Raquel Benati, da Associação dos Celíacos do Brasil.

— É muito ruim ser considerado hipocondríaco, fresco, enquanto tem gente sofrendo com o problema. Estamos caindo neste limbo e ficando desacreditados — comenta, levantando a necessidade de uma lei que dê mais detalhes sobre a presença de glúten nos rótulos.

Raquel pede mais informações em cardápios e mais cuidado com a contaminação cruzada (há celíacos graves que podem ter reações simplesmente pelo contato com alimentos preparados em acessórios usados anteriormente para manipular o glúten).

O tratamento se baseia na dieta sem glúten. E existem linhas de pesquisa que buscam uma fórmula para curar ou, pelo menos, amenizar os sintomas daqueles que não podem consumi-lo, principalmente quando não têm segurança sobre os ingredientes presentes num produto ou na sua forma de preparo em estabelecimentos comerciais.

Os sinais da alergia ao trigo geralmente ocorrem em seguida ou horas após o consumo do farináceo e apresentam erupções e coceiras na pele além de possíveis sintomas gastrointestinais e anafilaxia (reação aguda).

Os outros dois males têm sintomas menos claros, o que dificulta o diagnóstico. Problemas gastrointestinais, como dores, gases e diarreia, estão presentes tanto na doença celíaca — mais grave — quanto na sensibilidade ao glúten. Mas enxaqueca, doenças respiratórias, osteoporose e anemias também podem acometer esses indivíduos. No caso dos celíacos, eles podem sofrer de outras doenças autoimunes, entre elas o diabetes tipo 1 e a tireoidite de Hashimoto. Na realidade, menos de 50% dos adultos têm sintomas ditos “clássicos”. O diagnóstico da doença celíaca é feito por exames que testam anticorpos específicos, além de alterações intestinais observadas por biópsia. Na sensibilidade, começam a surgir novos exames, mas eles dependem mais ainda do olho clínico.

— Existe a doença celíaca silenciosa, mais difícil de descobrir, porque pode ter sintomas de outras coisas, como mal-estar, dor de cabeça, depressão. É preciso suspeitar e detalhar muito bem os hábitos do paciente para chegar ao diagnóstico — explicou ao público do evento o gastroenterologista Eduardo Lopes Pontes.

Este foi o caso da instrutora de pilates Ane Cristine Cândido, de 48 anos, que descobriu a doença há apenas uma década. Entre os sinais, o fato de seus irmãos terem sido diagnosticados — fatores genéticos são fortes — e anemia persistente.

— Quando fiz os exames, a doença já estava em franco progresso, tanto que poucos anos depois fiquei diabética — conta ela, que usa injeções de insulina.

Ane diz que sua alimentação é muito regrada e que nem sempre consegue opções seguras fora de casa. Ela concorda que o tema desperta polêmicas e que às vezes é vítima de preconceito, até de médicos:

— Quando fui diagnosticada, muitos médicos nem sabiam o que era. Isso vem melhorando, mas há vários que ainda menosprezam o problema, acham que é coisa da moda.

Doença celíaca

O que é. Desordem autoimune que provoca inflamações no intestino delgado e o deixa incapaz de absorver o glúten. Ocorre em 1% da população, geneticamente suscetível e exposta a fatores ambientais ainda sendo estudados.

Sintomas. Os sinais “clássicos” são dores abdominais, diarreia, mal-estar e gases. Também são indicativos: enxaqueca, doenças respiratórias, depressão, osteoporose, cansaço crônico, anemias recorrentes, infecções ginecológicas persistentes. Doenças autoimunes, como diabetes tipo 1 e tireoidite de Hashimoto.

Diagnóstico. Exames testam anticorpos (antitransglutaminase tecidual ou antiendomísio), além de alterações intestinais observadas por biópsia.

Sensibilidade ao glúten

O que é. Uma forma de intolerância ao consumo de glúten, quando a doença celíaca e a alergia ao trigo foram excluídas. Estima-se que 6% da população tenham o problema.

Sintomas. Parecidos, mas geralmente menos graves do que os da doença celíaca. Estudos sugerem que alguns casos de sensibilidade ao glúten são, na verdade, de doença celíaca que não respondem aos exames tradicionais.

Diagnóstico. Há dificuldade de se definir o diagnóstico. Depende da exclusão de doença celíaca e alergia ao trigo. Há testes moleculares que são aplicados como apoio ao histórico clínico de sintomas.

Alergia a trigo

O que é. Uma resposta imunológica exagerada às proteínas do trigo. Neste caso, não é uma reação ao glúten, mas é preciso evitar o trigo, uma das principais fontes dessa proteína.

Sintomas. Ocorrem minutos ou horas após o consumo de alimento com trigo e são iguais ao de quaisquer alergias: urticária, problemas gastrointestinais e até anafilaxia (reação alérgica aguda).

Diagnóstico. Realizado pelo alergista, a partir de história clínica do indivíduo, além de exames cutâneos e dosagem de anticorpo Imunoglobulina E (IgE) no sangue.



Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/dieta-sem-gluten-vale-pena-para-quem-16182356#ixzz3b57x4IJL 
© 1996 - 2015. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.