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NOTÍCIAS - A pessoa pode ter um infarto com o coração normal, por estresse - por Ana Beatriz de Melo A Del Tio

O que podemos esperar dos Encontros O GLOBO Saúde e Bem-Estar este ano, após quatro anos?

Eu acho que a medicina passou por avanços tecnológicos fantásticos e não vamos deixar de abordar isso, um dos temas deste ano será a robótica, o que a robótica pode incorporar à medicina. Outro avanço é a profusão de conhecimentos que trouxe duas mudanças para a medicina: o médico tem que aprender a trabalhar mais em time de forma multi e interdisciplinar, porque as áreas são imensas. Há necessidade que nós trabalhemos em time, especialmente em casos mais complexos, como uma intervenção no coração. E a terceira onda da medicina é a comportamental, baseada na escuta do paciente que começa com uma entrevista, o momento mágico da relação médico-paciente. Não há nada mais complexo do que mudar o comportamento do ser humano, como fazer uma pessoa parar de beber ou fumar. Para isso o médico tem que virar amigo do paciente, é uma relação de confiança.

Os encontros então terão a qualidade de vida como tema?

Saúde tem muito a ver com bem-estar e bem-estar é algo muito próximo de felicidade. Aliás esse foi o motivo da escolha do tema felicidade para abrir os encontros, porque estamos vivendo no Brasil e no mundo um momento de muita infelicidade. Muito desemprego, vírus zika, caos no trânsito das cidades e isso afeta muito o bem-estar das pessoas. Quando eu falo em bem-estar eu penso na minha dimensão pessoal mas também na família, na comunidade, local de trabalho, bem-estar emocional e físico. Nesse primeiro encontro queremos mostrar evidências científicas sobre a importância do afeto, da segurança financeira e da saúde para estar feliz. Se eu sou uma pessoa com bastante grana, bem de saúde mas sem afeto, sem amigos, sentado no restaurante tomando whisky rodeado por garçons, isso é tóxico, a solidão é tóxica. O mais longo estudo de felicidade no mundo, feito na Universidade de Harvard desde 1938 relata que o mais importante para a felicidade é a qualidade dos nossos relacionamentos. Na medicina nós gostamos muito de métrica: qual o nível do seu colesterol ou do seu açúcar no sangue. Mas tão importante quanto isso é o seu nível de satisfação, se você tem um hobby, como é a relação com a sua família. Nossos momentos mais felizes e mais tristes são vividos com pessoas. Eu me lembro da formatura do meu filho, do dia do meu casamento, do dia da morte do meu pai. A gente precisa disso.

Como está a qualidade de vida do brasileiro, o que o senhor observa no consultório?

Vamos relatar nosso momento especificamente no Brasil: muitas pessoas desempregadas, inflação é terrível porque diminui o poder de compra. Junto com isso há a falta de segurança. O sociólogo Zygmunt Bauman costuma dizer que a felicidade é um equilíbrio entre liberdade e segurança. Muita liberdade sem segurança nenhuma vira um caos, cada um faz o que quer. E muita segurança sem liberdade vira uma prisão. A felicidade é um valor intrínseco, tem um componente subjetivo enorme mas tem muito a ver com bem-estar e nosso bem-estar no momento atual não está muito bom. Por causa da crise econômica, da violência, da preocupação de disseminação do vírus zika porque ninguém sabe aonde vai chegar. Eu acho que está sendo um ano muito difícil para o povo brasileiro.

O tratamento médico consegue atenuar esses problemas externos? Ou cada um vai depender do seu próprio filtro mental?

O aconselhamento médico pode ajudar. Há alguns pressupostos básicos para lidar com o estresse: quando se estimula o paciente a fazer exercício, isso reduz o estresse. Uma boa alimentação ajuda, uma boa noite de sono também. As técnicas de respiração lenta são relativamente baratas e podem ser praticadas em qualquer lugar. Às vezes há necessidade de suporte psicoterápico, remédios, terapia. O profissional de saúde tem que escutar o paciente e ver como o estresse o afeta, porque um mesmo problema pode ter efeito diferente em pessoas diferentes. Mas eu tenho 32 anos de formado e eu nunca vi tanta gente ansiosa, estressada, preocupada. Jovens desanimados e depressivos com um mercado de trabalho difícil e pessoas de mais idade inseguras.

O coração acaba sendo o órgão mais afetado por todos esses fatores?

Cada um tem o seu órgão de choque. Para você ter uma ideia, a pessoa pode ter um infarto com as artérias coronárias normais, simplesmente pelo estresse, pode fazer um vasoespasmo, uma liberação de adrenalina grande, fechar as artérias, ter um quadro de infarto e ir parar no hospital. Ou pode ter uma crise de enxaqueca por estresse, ou exacerbar um quadro de herpes ou uma gastrite. O estresse afeta todo o organismo e cada pessoa tem seu órgão mais vulnerável.

O que é mais importante para não adoecer?

O austríaco Viktor Frankl, que viu sua família ser dizimada na Segunda Guerra em um campo de concentração nazista, ia morrer quando, por uma ironia do destino a ordem de execução foi transferida. Ele e um amigo sobreviveram e combinaram de, até o fim da vida contarem uma piada para o outro todos os dias, porque o ser humano não vive sem humor. Hoje, bons relacionamentos são importantes, bom humor, fé, expressar gratidão e não se comparar são coisas importantes. E nada disso implica em dinheiro. Um autor chamado Paul Dolan, autor do livro “Felicidade construída”, buscou definir o que trazia mais prazer e propósito para as pessoas e constatou que a resposta estava no trabalho voluntário. Com certeza faz muito mais bem a quem faz do que a quem recebe.

Além da felicidade, quais são os outros temas dos Encontros O GLOBO Saúde e Bem-Estar este ano?

Um deles seria a disseminação de doenças em grandes eventos, uma coisa que está se falando muito e preocupando por causa das Olimpíadas. Outra coisa importante é a longevidade: o que as mulheres de Okinawa e os homens da Sardenha, os mais longevos do mundo, têm em comum? Acho que temos que falar também dos suplementos e vitaminas que viraram um modismo e são desnecessários na maioria das vezes. Coração e câncer, as duas doenças que mais matam no mundo também serão abordadas porque os tratamentos de câncer em geral afetam o coração, e a gente muitas vezes não morre do câncer mas do coração, o que fez surgir a subespecialidade oncocardiologia na cardiologia. Vamos falar de cirurgia robótica, que veio para ficar e é um avanço espetacular em diversas áreas. E estabelecer em que ponto está a célula-tronco na medicina, a farmacogenômica, a nutrigenômica. Eu acredito que em cinco anos no máximo a sua dieta será orientada pelo seu genoma. Outro tema interessante é o alcoolismo, a noção de beber com moderação e os avanços com a Lei Seca.



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